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Friday, August 21, 2015

Histórias

"Um dia, um pai de família rica, grande empresário, levou seu filho para
viajar até um lugarejo com o firme propósito de mostrar o quanto as pessoas podem ser pobres.

O objetivo era convencer o filho da necessidade de valorizar os bens materiais
que possuía, o status, o prestígio social; o pai queria desde cedo passar esses valores para seu herdeiro.

Eles ficaram um dia e uma noite numa pequena casa de taipa, de um morador da fazenda de seu primo...

Quando retornavam da viagem, o pai perguntou ao filho:
- E aí, filhão, como foi a viagem para você ?
- Muito boa, papai.
- Você viu a diferença entre viver com riqueza e viver na pobreza ?
- Sim pai! Retrucou o filho, pensativamente.
- E o que você aprendeu, com tudo o que viu naquele lugar tão paupérrimo ?

O menino respondeu:
- É pai, eu vi que nós temos só um cachorro em casa, e eles têm quatro.

Nós temos uma piscina que alcança o meio do jardim, eles têm um riacho que não tem fim.

Nós temos uma varanda coberta e iluminada com lâmpadas fluorescentes
e eles têm as estrelas e a lua no céu.

Nosso quintal vai até o portão de entrada e eles têm uma floresta inteirinha.

Nós temos alguns canários em uma gaiola eles têm todas as aves
que a natureza pode oferecer-lhes, soltas!

O filho suspirou e continuou:
- E além do mais papai, observei que eles oram antes de qualquer refeição,
enquanto que nós em casa, sentamos à mesa falando de negócios, dólar,
eventos sociais, daí comemos, empurramos o prato e pronto!

No quarto onde fui dormir com o Tonho, passei vergonha, pois não sabia sequer orar, enquanto que ele se ajoelhou e agradeceu a Deus por tudo, inclusive
a nossa visita na casa deles. Lá em casa, vamos para o quarto,
deitamos, assistimos televisão e dormimos.

Outra coisa, papai, dormi na rede do Tonho, enquanto que ele dormiu no chão,
pois não havia uma rede para cada um de nós.

Na nossa casa colocamos a Maristela, nossa empregada, para dormir naquele quarto onde guardamos entulhos, sem nenhum conforto, apesar de termos camas macias e cheirosas sobrando.

Conforme o garoto falava, seu pai ficava estupefado, sem graça e envergonhado.
O filho na sua sábia ingenuidade e no seu brilhante desabafo, levantou-se, abraçou o pai e ainda acrescentou:
- Obrigado papai, por me haver mostrado o quanto nós somos pobres

MORAL DA HISTÓRIA:

Não é o que você tem, onde está ou o que faz, que irá determinar a sua felicidade; mas o que você pensa sobre isto! Tudo o que você tem, depende da maneira como você olha, da maneira como você valoriza. Se você tem amor e sobrevive nesta vida com dignidade, tem atitudes positivas e partilha com benevolência suas coisas, então... Você tem tudo!"



Ter e Ser
Um pai, em uma situação muito confortável de vida, resolveu dar uma lição a seu filho ensinando o que é ser pobre. Ficaria hospedado por alguns dias na casa de uma família de camponeses. O menino passou três dias e três noites vivendo no campo.
No carro, voltando para a cidade, o pai lhe perguntou: “Como foi sua experiência?” “Boa.” respondeu o filho, com o olhar perdido à distância.
“E o que você aprendeu?”, insistiu o pai.
O filho respondeu:
“Que nós temos um cachorro e eles têm quatro. Que nós temos uma piscina com água tratada, que chega até metade do nosso quintal. Eles têm um rio sem fim, de água cristalina, onde têm peixinhos e outras belezas. Que importamos lustres do Oriente para iluminar nosso jardim , enquanto eles têm as estrelas e a lua para iluminá-los. Nosso quintal chega até o muro.
O deles chega até o horizonte. Compramos nossa comida e esquentamos em microondas, eles cozinham em fogão à lenha. Ouvimos CD’s, Mp3, eles ouvem a sinfonia de pássaros, sapos, grilos, tudo isso às vezes acompanhado pelo sonoro canto de um vizinho trabalhando sua terra. Para nos protegermos vivemos rodeados por um muro, com alarmes… Eles vivem com suas portas abertas, protegidos pela amizade de seus vizinhos. Vivemos conectados ao celular, ao computador, sempre plugados, neuroticamente atualizados. Eles estão “conectados” à vida, ao céu, ao sol, à água, ao campo, animais, às suas sombras, à sua família.”
O pai ficou impressionado com a profundidade de seu filho e então o filho terminou: “Obrigado, pai, por ter me ensinado o quanto somos pobres! “
Nós temos olhos para enxergar, ouvidos para escutar, mas falta a humildade em nossa mente e coração para poder sentir.



Sons Inaudíveis
Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande Mestre, com o objetivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa. Quando o príncipe chegou ao templo, o Mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta. Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o Mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe:
– Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus…
E ao terminar o seu relato, o Mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu à ordem do Mestre, pensando:
– Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta…
Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo… Mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao Mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou:
– Esses devem ser os sons que o Mestre queria que eu ouvisse…
E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria Ter certeza de que estava no caminho certo. Quando retornou ao templo, o Mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.
Paciente e respeitosamente, o príncipe disse:
– Mestre, quando prestei atenção, pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite…
O Mestre sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse:
– Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor, entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um.”

O Valor do Sofrimento

Um jovem monge do Ocidente acabara de chegar a um dos mosteiros de Achaan Chah, situados na floresta. Pediu permissão para ficar e praticar os aprendizados.
Achaan Chah lhe disse:
- Espero que não tenha medo de sofrer.
Um tanto surpreso, o jovem ocidental explicou que não tinha vindo para sofrer, mas para aprender a meditar e a viver em paz na floresta.
Achaan Chah replicou:
- Existem dois tipos de sofrimento: o sofrimento que resulta em mais sofrimento e o sofrimento que põe fim ao sofrimento.
E continuou sabiamente:
- Se você não estiver disposto a encarar o segundo tipo, certamente continuará a experimentar o primeiro.
É importante saber lidar com "sofrimento humano" para vencermos o "sofrimento da alma"... é muito rica esta mensagem e cabe a cada um de nós refletir sobre ela.



fonte: http://www.rivalcir.com.br/mensagens2008/4153.html
http://mundodasfabulasemetaforas.blogspot.com/
http://www.cesarromao.com.br/historias1.html
https://sabedoriauniversal.wordpress.com/lendas-e-contos/

Monday, July 02, 2012

CAPÍTULO 11 - As deusas sujas.

O cio: A recuperação de uma sexualidade sagrada

Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres. Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos. Esse ser é curioso, gregário, transbordante de energia em certas horas, submisso em outras. Ele é sensível a estímulos que envolvam os sentidos: a música, o movimento, o alimento, a bebida, a paz, o silêncio, a beleza, a escuridão.

É esse aspecto da mulher que tem cio. Não um cio voltado exclusivamente para a relação sexual, mas uma espécie de fogo interior cuja chama cresce e depois abaixa, em ciclos. A partir da energia liberada nesse nível, a mulher age como lhe convém. O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela.

Seguem-se três histórias que encarnam o obsceno nos termos em que estamos usando a palavra, ou seja, uma espécie de encanto sexual/sensual que gera emoções agradáveis. As três tratam das deusas sujas. Chamo-as de sujas porque estiveram muito tempo vagueando debaixo da terra. No sentido positivo, elas pertencem à terra fértil, à lama, ao estrume — à substância criadora da qual se origina toda arte. Na realidade, as deusas sujas representam aquele aspecto da Mulher Selvagem que é tanto sexual quanto sagrado.

Baubo: a deusa do ventre

Há uma expressão muito forte que diz: Dice entre las piernas, "ela fala do meio das pernas". Essas pequenas histórias "do meio das pernas" são encontradas em todo o mundo. Uma delas é a história de Baubo, uma deusa da Grécia antiga, a chamada "deusa da obscenidade". Ela tem nomes mais antigos, como por exemplo Iambe, e aparentemente os gregos a adotaram de culturas muito mais antigas.

Ela é uma das divindades mais adoráveis e picarescas que habitaram o Olimpo. Esta é a minha versão da cantadora, baseada num resquício selvático de Baubo que ainda cintila na mitologia grega pós-matriarcal e nos hinos homéricos.

Deméter, a mãe-terra, tinha uma linda filha chamada Perséfone, que estava um dia brincando ao ar livre. Perséfone encontrou por acaso uma flor de rara beleza e estendeu os dedos para tocar seu lindo cálice. De repente, a terra começou a tremer e uma gigantesca fenda se abriu em ziguezague. Das profundezas da terra chegou Hades, o deus dos Infernos. Ele chegou alto e majestoso numa biga negra puxada por quatro cavalos da cor de fantasmas.

Hades apanhou Perséfone, levando-a para sua biga, em meio a uma confusão de véus e sandálias. Ele guiou então seus cavalos cada vez mais para dentro da terra. Os gritos de Perséfone foram ficando cada vez mais fracos à medida que a fenda foi se fechando como se nada tivesse acontecido. Por toda a terra, abateu-se um silêncio e o perfume de flores esmagadas.

E a voz da donzela a gritar ecoou nas pedras das montanhas e borbulhou num lamento vindo do fundo do mar. Deméter ouviu os gritos das pedras. Ela ouviu, também, o choro das águas. Arrancou, então, a grinalda dos seus cabelos imortais, deixou cair de cada ombro seus véus escuros e saiu a sobrevoar a terra como uma ave enorme, procurando, chamando por sua filha.

Naquela noite, uma velha à frente de uma gruta comentou com suas irmãs que havia ouvido três gritos naquele dia. Um, o de uma voz jovem que gritava de pavor; um outro que implorava ajuda; e um terceiro, o de uma mãe que chorava. Não se via Perséfone em parte alguma. E assim começou a procura longa e enlouquecida de Deméter por sua filha querida. Deméter esbravejava, chorava, gritava, fazia perguntas, procurava debaixo, dentro e em cima de todos os acidentes geográficos, implorava por misericórdia, implorava pela morte, mas não conseguia encontrar sua filha amada. Assim, ela, que havia gerado o crescimento perpétuo de tudo, amaldiçoou todos os campos férteis do mundo, gritando na sua dor.

— Morram! Morram! Morram!

Em decorrência da maldição de Deméter, nenhuma criança poderia nascer, nenhum trigo poderia crescer para se fazer pão, nenhuma flor para as festas, nenhum ramo para os mortos. Tudo ficou murcho e esgotado na terra crestada e nos seios secos. A própria Deméter não mais se banhava. Seus mantos estavam encharcados de lama; seus cabelos pendiam em cachos imundos. Muito embora a dor no seu coração fosse tremenda, ela não se entregava. Depois de muita investigação, de muitos pedidos e de muitos incidentes, tudo levando a nada, ela afinal perdeu as forças ao lado de um poço numa aldeia onde não era conhecida. E quando recostou seu corpo dolorido na pedra fresca do poço, chegou por ali uma mulher, ou melhor, uma espécie de mulher. E essa mulher chegou dançando até Deméter, balançando os quadris de um jeito que sugeria a relação sexual, e balançando os seios nessa sua pequena dança. E, quando Deméter a viu, não pôde deixar de sorrir um pouco.

A fêmea que dançava era realmente mágica, pois não tinha nenhum tipo de cabeça, seus mamilos eram seus olhos e sua vulva era sua boca. Foi com essa boquinha que ela começou a regalar Deméter com algumas piadas picantes e
engraçadas. Deméter começou a sorrir, depois deu um risinho abafado e em seguida uma boa gargalhada. Juntas, as duas mulheres riram, a pequena deusa do ventre, Baubo, e a poderosa deusa mãe da terra, Deméter.

E foi exatamente esse riso que tirou Deméter da sua depressão e lhe deu energia para prosseguir na sua busca pela filha, que acabou em sucesso, com a ajuda de Baubo, da velha Hécate, e do sol Hélios. Restituíram Perséfone à sua mãe. O mundo, a terra e o ventre das mulheres voltaram a vicejar.

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Sempre gostei mais dessa pequena Baubo do que de outras deusas na mitologia grega, talvez mais do que de qualquer outra figura, ponto final. Ela sem dúvida tem como origem as deusas do ventre do período neolítico, que são misteriosas figuras sem cabeça e às vezes sem pés e sem braços. É insignificante chamá-las de figuras de fertilidade, porque elas são muito mais do que isso. Elas são talismãs da conversa da mulher — vocês sabem, aquele tipo de conversa que as mulheres nunca, nunca mesmo, teriam na frente de um homem, a não ser que fosse sob circunstâncias raras. Esse tipo de conversa.

Além do mais, a pequena deusa Baubo nos dá a idéia interessante de que um pouco de obscenidade pode ajudar a desfazer uma depressão. E é verdade que certos tipos de riso, que provêm de todas as histórias que as mulheres contam umas para as outras, histórias que são tão apimentadas ao ponto de serem de total mau gosto... essas histórias ativam a libido. Elas acendem o fogo do interesse da mulher pela vida.

E quanto a "falar com a vulva", trata-se simbolicamente de falar a partir da primae materia, o nível mais básico e honesto da verdade — a boca vital. O que mais haveria a dizer além de que Baubo fala do filão mestre, da mina profunda, literalmente das profundezas. Na história em que Deméter procura sua filha, ninguém sabe que palavras Baubo teria realmente dito a Deméter. Mas podemos ter algumas idéias.

Coyote Dick*

* Dick é a forma hipocoristica de Richard, mas é também um termo vulgar para designar o pênis. (N. da T.)

Era uma vez Coyote Dick, e ele era tanto a criatura mais esperta quanto a mais tonta que jamais se podia esperar encontrar. Ele estava sempre querendo comer alguma coisa, sempre trapaceando as pessoas para conseguir o que queria e, em qualquer outra hora, estava dormindo.

Bem, um dia quando Coyote Dick estava dormindo, seu pênis ficou realmente entediado e resolveu abandonar Coyote para viver sozinho uma aventura. Foi assim que o pênis se soltou de Coyote Dick e saiu correndo pela estrada. Na realidade, ele pulava pela estrada afora já que possuía só uma perna.

E ele foi pulando e pulando, e se divertindo até que saltou da estrada e entrou na floresta, onde — Ah, não! — ele pulou direto numa moita de urtigas.

— Ai! — gritou ele. — Ai, ai, ai! — berrou ele. — Socorro! Socorro!

O barulho dessa gritaria toda acordou Coyote Dick e, quando ele estendeu a mão para dar partida no coração com a manivela, como de costume, viu que ela não estava mais lá. Coyote Dick saiu correndo pela estrada, segurando-se no meio das pernas, e afinal encontrou seu pênis passando pela maior dificuldade que se pudesse imaginar. Com grande delicadeza, Coyote Dick tirou seu pênis aventureiro do meio das urtigas, acarinhou-o, tranqüilizou-o e o devolveu ao seu lugar certo.

“A moral é que, mesmo depois de Coyote Dick sair do meio das urtigas, elas fizeram seu pau coçar feito louco para todo o sempre. E é por isso que os homens estão sempre chegando perto das mulheres e querendo se esfregar nelas com aquele olhar de "Estou com uma coceira". Pois é, aquele pau universal está coçando desde a primeira vez que fugiu do dono.”

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É esse o tipo de história que eu realmente acho que Baubo contou. Seu repertório inclui qualquer coisa que faça as mulheres rirem desenfreadas, sem ligar para as amídalas aparecerem, com a barriga solta, com os selos balançando.

No sagrado, no obsceno, no sexual, há sempre uma risada selvagem à espera, um curto período de riso silencioso, a gargalhada de velha obscena, o chiado que é um riso, a risada que é selvagem e animalesca ou o trinado que é como uma volata. O riso é um lado oculto da sexualidade feminina: ele é físico, essencial, arrebatado, revitalizante e, portanto, excitante. É um tipo de sexualidade que não tem objetivo, como a excitação genital. É uma sexualidade da alegria, só pelo momento, um verdadeiro amor sensual que voa solto e que vive, morre e volta a viver da sua própria energia. Ele é sagrado por ser tão medicinal. É sensual por despertar o corpo e as emoções. Ele é sexual por ser excitante e gerar ondas de prazer. Ele não é unidimensional, pois o riso é algo que compartilhamos com nosso próprio self bem como com muitos outros. É a sexualidade mais selvagem da mulher.

Segue-se mais um exemplo de histórias de mulheres e de deusas sujas. Essa história conheci quando criança. É surpreendente o que as crianças ouvem que os adultos acham que elas não ouvem.

Uma viagem a Ruanda

O general Eisenhower ia visitar suas tropas em Ruanda. O governador queria que todas as mulheres nativas se postassem ao longo da estrada de terra para dar vivas e acenar em boas-vindas a Eisenhower quando ele passasse no seu jipe. O único problema era que as mulheres nativas nunca usavam roupa a não ser um colar de contas e às vezes um minúsculo cinto de correia.

Não, não, isso não seria conveniente. Portanto, o governador chamou o chefe da tribo e lhe falou do seu problema.

— Não se preocupe — disse o chefe. Se o governador conseguisse algumas dúzias de saias e blusas, ele se certificaria de que as mulheres se apresentariam vestidas nesse acontecimento especial. E esses trajes o governador e os missionários da região conseguiram obter.

No entanto, no dia do desfile e apenas poucos minutos antes de Eisenhower descer pela longa estrada no seu jipe, descobriu-se que apesar de todas as mulheres estarem usando obedientemente as saias, elas não haviam gostado das blusas e as haviam deixado em casa. Pois agora todas as mulheres; estavam enfileiradas dos dois lados da estrada, com saias, mas com o peito nu, e sem mais nenhuma roupa, nem mesmo roupa de baixo.

Ora, o governador ficou apoplético ao saber disso e convocou, irado, o chefe. Este lhe assegurou que sua mulher havia conversado com ele, garantindo-lhe que as mulheres haviam concordado com um plano para cobrir os seios quando o general estivesse passando.

— Você tem certeza? — berrou o governador.

— Tenho toda a certeza — respondeu o chefe. Bem, não havia muito tempo para discutir, e nós só podemos tentar adivinhar qual foi a reação do general Eisenhower quando seu jipe veio passando ruidoso e uma mulher de seios nus atrás da outra levantava graciosamente a frente da saia rodada e cobria o rosto com ela.

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Jung observou que, se alguém procura seu consultório queixando-se por um motivo sexual, o verdadeiro motivo muitas vezes era mais um problema do espírito e da alma. Quando uma pessoa relatava um problema de natureza espiritual, muitas vezes era na realidade um problema de ordem sexual.

Nesse sentido, a sexualidade pode ser imaginada como um bálsamo para o espírito, sendo, portanto, sagrada. Quando o riso sexual é medicinal, ele é um riso sagrado. E aquilo que provoca o riso medicinal é também sagrado. Quando o riso ajuda sem prejudicar, quando ele alivia, reorganiza, põe em ordem, reafirma a força e o poder, esse é o riso que gera a saúde. Quando o riso deixa as pessoas alegres por estarem vivas, felizes por estarem aqui, com maior consciência do amor, elevadas pelo eros, quando ele desfaz sua tristeza e as isola da raiva, ele é sagrado. Quando elas se tornam maiores, melhores, mais generosas, mais sensíveis, ele é sagrado.

No arquétipo da Mulher Selvagem, há muito espaço para a natureza das deusas sujas. Na natureza selvagem, o sagrado e o irreverente, o sagrado e o sexual, não estão separados, mas vivem juntos como imagino um grupo de velhas esperando na estrada que nós apareçamos. Elas estão ali na sua psique, esperando que você apareça, experimentando suas histórias umas com as outras e rindo como loucas.

Postado por Carmen Corrêa - fonte original: http://lobasquecorrem.blogspot.com/2011/11/11-as-deusas-sujas.html

Friday, June 15, 2012

Como explicar o Amor.

Como explicar o AMOR

Contam que, uma vez, reuniram-se os sentimentos e as qualidades dos homens, num lugar da Terra.

Quando o ABORRECIMENTO havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tão louca, propôs-lhe:
- Vamos brincar às escondidas?
A INTRIGA levantou a sobrancelha, intrigada, e a CURIOSIDADE, sem poder conter-se, perguntou: «- Escondidas? Como é isso?»
- É um jogo - explicou a LOUCURA - em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem e, quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo. O ENTUSIASMO dançou, seguido pela EUFORIA.
A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou convencendo a DÚVIDA e até mesmo a APATIA, que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar: a VERDADE preferiu não se esconder; para quê, se no final todos a encontravam?
A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo, o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela) e a COVARDIA preferiu não se arriscar.
- Um, dois, três, quatro... - começou a contar a LOUCURA.
A primeira a esconder-se foi a PRESSA, que, como sempre, caiu atrás da primeira pedra do caminho.
A FÉ subiu ao céu e a INVEJA escondeu-se atrás da sombra do TRIUNFO, que com seu próprio esforço, tinha conseguido subir até à copa da árvore mais alta.
A GENEROSIDADE quase não se conseguia esconder, pois cada local que encontrava lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos - se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA; se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ; se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPTIA; se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E assim, acabou por se esconder num raio de sol.
O EGOÍSMO, pelo contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cómodo, mas apenas para ele.
A MENTIRA escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris), e a PAIXÃO e o DESEJO no centro dos vulcões.
O ESQUECIMENTO, não me recordo onde se escondeu, mas isso não é o mais importante.
Quando a LOUCURA estava lá em 999.999, o AMOR ainda não havia encontrado um local para se esconder, pois todos já estavam ocupados; até que encontrou um roseiral e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores.
- Um milhão - contou a LOUCURA. E começou a busca.
A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus, no céu, sobre Zoologia.
Sentiu-se vibrar a PAIXÃO e o DESEJO nos vulcões.
Por mero acaso, encontrou a INVEJA, e claro, pode deduzir onde estava o TRIUNFO.
Ao EGOÍSMO, não teve nem que procurá-lo: ele saiu sozinho, disparado, do seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.
De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede e, ao aproximar-se de um lago, descobriu a BELEZA.
À DÚVIDA foi mais fácil ainda, pois encontrou-a sentada sobre uma cerca, sem decidir de que lado se esconder.
E assim foi encontrando a todos.
O TALENTO entre a erva fresca; a ANGÚSTIA numa cova escura; a MENTIRA atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano); e até o ESQUECIMENTO, de quem já se tinham esquecido que estava a brincar às escondidas.
Apenas o AMOR não aparecia em nenhum local. A LOUCURA procurou atrás de cada árvore, em baixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas.
Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, se escutou um doloroso grito: os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos.
A LOUCURA não sabia o que fazer para se desculpar: chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser a guia do AMOR para sempre.
Desde então, desde que pela primeira vez se brincou às escondidas na Terra, o AMOR é cego e a LOUCURA sempre o acompanha.

Friday, June 08, 2012

O menino que pregava pregos.

"O menino e os pregos."

Professora Vera Cristina Weissheimer *

Pessoas magoam-se diariamente. Algumas magoam outras pelo simples prazer de exercitar a sua autoridade travestida de autoritarismo, ou porque querem impor seu jeito de ver a vida... E não percebem que muitas vezes o seu é um jeito caolho. O poeta Carlos Drummond de Andrade tem razão: ninguém possui a verdade inteira. Temos, cada um, uma parte da verdade, mesmo achando que a temos por inteiro. Para pensarmos duas vezes (ou mais...) antes de magoar alguém, quero compartilhar uma história:

Era uma vez um menino que tinha sempre razão. O pai deu-lhe um saco de pregos e disse que, para cada vez que perdesse a calma, o filho deveria pregar um prego na cerca de madeira que rodeava a casa.

No primeiro dia, o menino pregou 17. Nas semanas seguintes, como ele aprendeu a controlar seu temperamento, o número de pregos na cerca diminuiu gradativamente...

Ele descobriu que era mais fácil se segurar do que martelar pregos. Finalmente chegou o dia que o menino não perdeu a calma em nenhum momento. Contando a novidade a seu pai, recebeu uma segunda tarefa: deveria tirar da cerca um prego por cada dia em que não perdesse a calma. Os dias se passaram e o menino, então, estava finalmente pronto para dizer a seu pai que tinha retirado todos os pregos da cerca.

O pai o pegou pela mão e levou até a cerca: "Você fez muito bem, meu filho, mas, veja só os buracos que restaram na cerca. Ela nunca mais será a mesma! Quando você fala algumas coisas com raiva, elas deixam cicatrizes como estas.Você pode enfiar a faca em alguém e retirá-la. Não importa quantas vezes você peça desculpa, a ferida ainda esta lá. Um ferimento verbal é a mesma coisa que um ferimento físico."

Que Deus nos ajude a lembrar que nosso próximo não é uma cerca na qual podemos descarregar nossa mágoa e ferir enterrando pregos.

Thursday, April 12, 2012

Escravos da Ignorância

Quando a Princesa Isabel assinou a famosa Lei Áurea, "pondo fim" a séculos de escravidão negra no Brasil, houve grande comemoração entre os negros. Podiam, enfim, abandonar a senzala e mandar às favas seus senhores e carrascos. A tão sonhada liberdade se tornava uma realidade.

Mas, não demorou muito para surgir na cabeça de muitos daqueles "ex-escravos" a grande questão. Ou melhor, duas grandes questões: o que é a liberdade? E o que devo fazer com ela?

Sem respostas para estas questões, boa parte deles voltaram para seus antigos senhores para mendigar trabalho em troca de um prato de comida e um lugar para passar a noite. Foi assim que a escravidão continuou, e continua, a existir no Brasil até hoje. Esta era a única forma de vida que eles conheciam. Ser livre era complicado demais. A escravidão não era apenas física, mas também mental - ou intelectual. A verdade é que eles podiam ser livres - livres de verdade. Mas eles não conheciam esta verdade, por isso permaneceram escravos.

Na nossa vida cristã não é diferente. O desconhecimento da verdade contida na Palavra de Deus tem feito escravos, tanto fora quanto dentro das igrejas. E não se trata do tão falado "escravo do pecado", mas de uma nova modalidade de escravidão: o escravo do desconhecimento - ou da ignorância.

O apóstolo Paulo adverte os cristãos de Colossos: "tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo" (C.2:8). E insiste mais à frente, no versículo 18: "ninguém vos domine a seu bel prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos...".

O apóstolo recomenda, aqui, aos cristãos daquela cidade, cautela contra todo tipo de artifícios humanos e seculares, usados nas igrejas para escravizar a mente daqueles que desconhecem a graça salvadora de nosso Senhor Jesus Cristo. E não estou falando daqueles que ainda não o aceitaram, mas daqueles que aceitaram, não a Cristo, mas ao produto das "tradições dos homens" e dos "rudimentos do mundo", que lhes foram apresentados como sendo Cristo.

A igreja de Colossos também sofria com estes falsos obreiros que "com pretexto de humildade e culto dos anjos", se aproveitavam da falta de maturidade cristã, provocada pelo desconhecimento da Palavra, manipulando os fiéis, para satisfazer aos seus próprios deleites. A falta de visão espiritual não lhes permitia enxergar o lobo que estava por baixo daquela vestimenta de pastor.

Alguns versículos antes do usado em nosso tópico (Jo. 8:12), Jesus afirma que aqueles que não o seguem andam em trevas. E, quem anda em trevas, logicamente, não consegue enxergar. É possível, então, que cristãos que afirmam conhecer a Jesus e andar com Ele, ainda andem em trevas? Infelizmente sim. As igrejas estão cheias deles. Dizem seguir a Cristo sem ao menos conhecê-lo.

Diz o sábio Salomão que "... a vereda do justo é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais, até ser dia perfeito" (Prov.4:18). Mas, muitos cristãos nunca saem da madrugada. Parece até que são notívagos, pois nunca dão chance para que a luz do conhecimento de Deus chegue às suas mentes. O resultado é que essas pessoas se tornam presas fáceis do "senhores" do falso conhecimento. Deixam-se dominar por estes manipuladores em troca de um prato de "comida estragada", voltando à escravidão.

Este ensinamento do Mestre deveria ser mais bem interpretado. Quem liberta não é a verdade pura e simples, e sim, o conhecimento dela. Sem este conhecimento o homem se torna escravo de sua própria ignorância.

Também aos Gálatas, no Capítulo 4, o apóstolo faz recomendação parecida, pedindo que eles deixassem de ser escravos, pois, como meninos (sem conhecimento pleno) estavam reduzidos à servidão, e, passassem a ser filhos, herdeiros de Deus por Cristo. Os versículos 8 e 9 deste capítulo são esclarecedores: "mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis (eram escravos) aos que, por natureza não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus...como tornais outra vez a estes rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?"

Nos dias de hoje, creio que ele gritaria bem alto: oh! Santa ignorância! Como vocês gostam de ser escravos!

Cristo nos libertou para que fôssemos de fato livres. E isto muito antes da Princesa Isabel libertar os escravos negros do Brasil. Mas, passados mais de dois mil anos, mesmo com os ensinamentos preocupantes de Paulo, e de muitos outros grandes homens de Deus, multidões tornam à servidão, mendigando um prato de resto de comida, para lhe saciar a fome da alma. Conheça a verdade! Só o conhecimento liberta!

Elias Soares é pastor, escreveu artigos literários para a revista "O Poder da Oração", e autor do livro "O espetáculo em Nome da Fé", onde aborda a ética cristã e sua vivência.

Monday, January 02, 2012

Arte e um homem rico..

“Eu quero falar sobre um pobre homem rico. Ele tinha dinheiro e posses, uma esposa fiel para beijar e afastar as preocupações dos negócios e um bando de crianças de dar inveja até ao mais pobre dos seus empregados. Tudo em que pôs suas mãos prosperou e por isso ele era amado por seus amigos. Mas hoje tudo é muito diferente. Contarei como isso ocorreu.

Um dia este homem falou para si mesmo: “Você tem dinheiro e posses, uma esposa fiel, um bando de crianças de dar inveja até ao mais pobre dos seus empregados, mas você está realmente feliz? Você vê que existe pessoas que não têm nenhuma dessas coisas pelas quais é invejado, mas suas preocupações são totalmente apagadas por um grande mágico: Arte! Mas o que é arte para você? Você sequer sabe o nome de um artista. Qualquer esnobe poderia bater à porta e seu servo iria pô-lo adentro. No entanto, você nunca recebeu Arte! Com certeza ela nunca viria. Mas agora eu vou chamá-la. Deverá ser recebida em minha casa como uma rainha que veio morar comigo.”

Ele era um homem poderoso, realizava com grande energia qualquer coisa que assumisse. Era sua maneira habitual de fazer negócios. E assim, no mesmo dia foi a um famoso arquiteto de interiores e disse: “Traga-me Arte, Arte sob meu próprio teto! Dinheiro não importa!”

O arquiteto não precisou ouvir duas vezes. Ele foi até a casa do homem e imediatamente jogou fora todos os seus móveis. Lá deixou trabalhando pintores, pedreiros, serralheiros, carpinteiros, instaladores, oleiros escultores etc.

Você nunca viu os gostos de Arte que foram capturados e tão bem tratados em cada canto da casa do homem rico.

O homem rico ficou radiante. Entusiasmado, passou pelas novas salas. Arte por toda parte! Arte em tudo e qualquer coisa. Quando segurou uma maçaneta, segurou Arte. Quando se afundou em uma cadeira, se afundou em Arte. Quando esticou seus ossos cansados sob o travesseiro, ele se esticou em Arte. Seus pés afundaram em Arte quando ele andou pelo tapete. Ele se entregou à Arte com fervor escandaloso. Desde que seus pratos foram artisticamente decorados, ele cortou seu bife à l’oignon com muito mais energia.

As pessoas o elogiavam e invejavam. As revistas de Arte glorificavam seu nome como um dos principais patronos das artes. Suas salas foram usadas como exemplos para o público, estudadas, descritas, explicadas.

Valeu a pena. Cada quarto era uma completa sinfonia individual de cores. Paredes, móveis e tecidos foram feitos sofisticadamente em perfeita harmonia uns com os outros. Cada aplicação teve seu próprio lugar, e estava ligada as outras, em combinações maravilhosas.

O arquiteto nada esqueceu, absolutamente nada. Tudo desde o cinzeiro e talheres até o porta-velas havia sido combinado e relacionado. Não foi uma obra banal de arquitetura. Em cada ornamento, em cada forma, em cada detalhe a individualidade do proprietário podia ser encontrada (um trabalho psicológico de tais complicações deixava isso claro para qualquer um).

O arquiteto recusou modestamente todas as honras, dizendo apenas: “Essas salas não são para mim, lá no canto está uma estátua do Charpentier. Da mesma forma que alguém me desagradaria caso afirmasse ter projetado uma das salas apenas por usar uma de minhas maçanetas, tão pouco como posso eu reivindicar estes quartos como projetos meus?” Isto foi nobre e conseqüentemente dito. Muitos carpinteiros que, talvez, usaram um papel de parede de Walter Crane e queriam o crédito pelos móveis porque eles haviam criado e executado, ficaram envergonhados nas profundezas de suas almas negras, por como puderam aprender esta palavra.

Após tergiversarmos, voltemos ao nosso homem rico. Já havia dito como ele estava radiante. A partir daí dedicou grande parte do seu tempo ao estudo da sua habitação. Tudo estava por aprender; percebeu isto bastante cedo. Havia muito a ser notado. Cada coisa teve seu lugar definido. O arquiteto fez o melhor para ele. Pensou tudo com antecedência. Havia um lugar definido mesmo para a menor situação, feito especialmente para isto.

A casa era confortável, mas era um rígido trabalho mental. Nas primeiras semanas o arquiteto inspecionou o dia-a-dia da família, de modo que nada incorresse em erros. O homem rico empenho-se duramente. Ainda assim houve quando ele pôs sem pensar um livro no classificador indicado para os jornais. Ou quando bateu a cinza do charuto no espaço do castiçal. Se pegava algo, a infinita procura pelo lugar certo de devolvê-lo começava. Às vezes o arquiteto tinha que consultar as plantas para redescobrir o lugar correto da caixa de fósforos.

Quando se vivencia experiências de arte aplicada, a música não pode ficar para trás. Essa idéia manteve o homem rico bastante ocupado. Ele sugeriu à companhia de bondes substituir o toque sem sentido dos sinos dos trens pelo toque dos sinos da Parsifal. Não houve concessão. Obviamente eles não estavam preparados para um conceito tão moderno. No entanto, assumindo os custos, foi autorizado a alterar o calçamento em frente a sua casa, de modo que os carros passassem ao ritmo da Marcha Radetzky. Até a campainha da sua casa ganhou novos arranjos de Wagner e Beethoven. Todos os críticos de arte competentes se enchiam de elogios ao homem que abriu um novo espaço de “arte como commodity”.

Pode-se imaginar que todas essas melhorias tornariam o homem mais feliz.

Porém não podemos esconder o fato de que ele tentava permanecer em casa o mínimo possível. Agora e mais tarde era preciso um descanso de tanta arte. Você conseguiria viver em uma galeria de arte? Ou sentar por meses com Tristão e Isolda? Quem poderia culpá-lo por juntar forças em restaurantes, cafés, com amigos e conhecidos antes de enfrentar sua própria casa? Ele esperava algo diferente. Mas a Arte exige sacrifício. Ele sacrificou muito, seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele pensou em todas as velharias que guardava com tanto carinho e foram jogadas fora. A poltrona! Todo dia seu pai fazia nela a sesta. O velho relógio, os quadros antigos! Arte exige isso! Não se lamente!

Certo dia comemoraram seu aniversário. Sua esposa e seus filhos lhe deram muitos presentes. Ficou muito contente com todos eles, trouxeram muita felicidade e alegria. Mais tarde o arquiteto apareceu, com seu direito de verificar a colocação dos objetos e responder perguntas complicadas. Ele entrou na sala. O homem rico, que tinha muitas preocupações em sua mente, veio cumprimentá-lo calorosamente.

O arquiteto não percebeu a felicidade do homem rico, mas descobriu alguma coisa que tirou a cor do seu rosto. “Por que você está com essas sandálias?”, perguntou.

O dono da casa olhou para as sandálias bordadas e suspirou de alívio. O calçado fazia parte do projeto original do próprio arquiteto. Desta vez ele se sentiu inocente. Respondeu pensativo:

“Mas senhor Arquiteto! Esqueceu-se? Você mesmo projetou essas sandálias!”

“Certamente!” trovejou o arquiteto. “Mas eles são para o quarto! Com peças dessa cor você destrói toda a atmosfera. Não percebe?”

O homem rico tirou as sandálias imediatamente. Ficou extremamente satisfeito pelo arquiteto não achar suas meias ofensivas. Entraram no quarto, onde o homem rico estava autorizado a pôr as sandálias de volta.

“Ontem”, começou timidamente “eu comemorei meu aniversário. Minha família me deu toneladas de presentes. Mandei chamá-lo de modo que pudesse nos dar conselhos sobre onde devemos colocar todas as coisas novas”

O rosto do arquiteto ficou visivelmente maior. Em seguida, soltou:

“Como se atreve a receber presentes? Eu não desenhei tudo para você? Não tenho tomado conta de tudo? Você não precisa de mais nada. Você está completo!” “Mas” o homem rico respondeu “eu deveria ser autorizado a comprar as coisas.”

“Não, você não está autorizado, nunca, jamais! Era só o que me faltava! coisas! que não foram desenhadas por mim! Eu não fiz o bastante, eu não pus o Charpentier aqui para você? Essa estátua que rouba toda a fama do meu trabalho! Não, você não está autorizado a comprar mais nada!”

“Mas e quando o meu netinho traz de presente algo do jardim de infância?”

“Você não está autorizado a pegar!”

O homem rico foi dizimado, mas ele ainda não tinha perdido. Uma ideia! Sim! Uma idéia!

“E quando eu quiser ir à Secessão para comprar uma pintura?” perguntou triunfante.

“Tente pendurá-la em algum lugar. Não vê que não há lugar para mais nada? Para cada pintura que pendurei aqui há uma moldura na parede. Você não pode mover nada. Experimente encaixar uma nova pintura!”

Então algo mudou dentro do homem rico. O homem feliz de repente sentiu-se profundamente triste. Viu sua vida futura. Ninguém seria autorizado a conceder-lhe alegria.

Ele teria que passar pelas lojas da cidade, perfeito, completo. Nada nunca mais seria feito para ele. Nenhum de seus entes queridos seria autorizado a dar-lhe uma pintura. Para ele, não poderia haver mais pintores, artistas, artesãos. Ele foi isolado da vida futura e de seus esforços, sua evolução, seus desejos. Ele sentiu: Agora é hora de aprender a andar com o próprio cadáver. Certamente ele está finalizado! Está completo!